Vida no Reino Unido

Guri no jogo do Chelsea pela Champions League

É complicado não fazer parte do esteriótipo. É do Brasil? Joga futebol pacaraaaai – não. Nunca fui o cara de dentro do campo, na real. Lá pela terceira série eu lembro de ter levantado a poeira fina da escola que estudava em Lajeado Grande. Acho que joguei como goleiro e minha carreira não deve ter durado mais que dois jogos.

Fora do campo já atuei mais: sempre torcedor do Grêmio gosto de assistir futebol, apesar de já ter tido mais paciência pra sentar na frente da TV e assistir o jogo. Fui uma vez num Juventude x Grêmio em Caxias do Sul, e no Olímpico só pra visitar. Uma que achava mais confortável ver pela TV, com comentários e estatísticas; e outro que não estava a fim de levar um banco de plástico ou uma bala na cabeça, obrigado, tô de boa.
Cheguei aqui e chegou a hora da decisão, a hora do pênalti: qual canto chutar? Sempre fui torcedor do Grêmio, o azul do Brasil. O azul aqui é o Chelsea (the Blues). Por acaso (ou não) tem também a garra de vários brasileiros na equipe: atualmente Diego Costa (apesar de jogar pela seleção da Espanha), Filipe Luis, Ramires, Oscar e Willian. Decidido!

Fiquei com vontade de ir num jogo aqui, então hora de comprar ingresso porque aqui não tem bala de borracha. Oi? Como assim não tem ingresso?  Pois é, se tua intenção é chegar em Londres e ir lá na bilheteria do Stamford Bridge “toc toc toc, tem ingresso?” já aviso coisa não vai ser fácil. Isso porque a venda de ingressos abre primeiro para membros afiliados. O que eu fiz? Me afiliei, claro!

Ahhhh tá ricão né!????? Não. Hora do parênteses no texto pra explicação/comparação. Detalhe: se tu for sócio de algum time no Brasil vai ficar anojado, então se não tiver a fim pula pro próximo parágrafo. Pra ter acesso aos ingressos (1 ou 2 por jogo, depende o campeonato) e a revista oficial do clube em casa pago £ 35 por ano, anuais, a cada 365 dias, só pra ficar claro. Só pra internalizar bem a informação e não ficar dúvida a filiação para com o primeiro colocado da campeonato inglês custa £ 35 por ano (podendo variar até £ 45 por ano). A filiação para com o primeiro colocado do campeonato brasileiro (Cruzeiro) custa R$ 360 por ano (podendo variar até R$ 2.640 por ano). Nem que a gente converta três vezes pelo câmbio não consegue chegar ao preço do outro.

Fui fazer o Stamford Bridge Stadium Tour, o passeio do estádio do Chelsea que visita as arquibancadas, os vestiários (deles e dos visitantes), sala de imprensa e o museu do clube. Inclusive, mais um parênteses aqui: me chamou atenção uma espécie de estufa que estava instalada sob o gramado pra simular raios solares. Neste dia, entrando de vez no estádio, a vontade de ir assistir um jogo foi maior ainda. O tour dura cerca de uma hora e custa £ 17 (setembro/2014).

Pois bem. Numa manhã qualquer recebo um e-mail do Chelsea avisando que estavam disponíveis ingressos pro jogo da Champion League, contra o Schalke 04 (vice-campeão do campeonato alemão na temporada passada). Agora vai! Agora não escapa! Comprei o ingresso online por £ 35, escolhi o setor, e uns dias depois recebi o ingresso em casa.

E lá fui: chegou dia 17 e hora de ir pro jogo. Disctrict Line = atrasos, então procurei ir um pouco antes. Legal: troquei de trem em Earl’s Court, pois pra ir até o Stamford Bridge, a estação é a de Fulham Broadway. Como já tinha ido lá sabia onde era, mas minha surpresa já começou na chegada: eles fazem um caminho especial pros torcedores, eliminam as catracas e o acesso é fácil. Cheguei no estádio e localizei meu portão (pro West Upper Stand). Subi (muita!) escada e achei meu assento. Eram por volta de 19h e o estádio estava com cerca de 20% ocupado, no máximo!

O bar no meio do caminho me lembrou uma lanchonete de shopping. Pedi por uma cerveja: “não podemos servir porque é jogo da Champions League”. Chatos.

Coisas estranhas aconteciam, no entanto: a torcida que estava num dos cantos do gigante estádio não cessava a cantoria. Explodiu em aplausos quando o time entrou em campo pra aquecimento. Aí saquei: eram os alemães apoiando a ferro e fogo com toda a força da goela o clube. Agora sim estava explicado o porque de tanta segurança naquele canto do estádio e porque eles já estavam lá antes de toda a torcida do Chelsea.

7h20 e nada do estádio lotar. Será que não vai lotar? 7h30 e cerca de metade das confortáveis cadeiras do Stamford Bridge estavam ocupadas. Será que não vai lotar? Minha atenção ficou tomada pelo programme, um mini-guia que tem todas as informações e estatísticas daquela partida. Ao invés de ouvir o Galvão Bueno, a gente lê no programme do jogo. Ufa!

7h40: pronto, as últimas pessoas ocupando os assentos e o jogo pra começar. Apita o árbitro. Rola a bola. Deixei os comentários da partida, pra quem gosta de futebol, no fim do post, aí tu escolhe se quer ler ou não.

No intervalo o sistema de irrigação do estádio foi ligado novamente, ao mesmo tempo em que dezoito homens entram em campo pra fazer sua parte no espetáculo: consertar possíveis falhas no campo. Segundo tempo em jogo, 90 minutos, acréscimo, termina a partida.

Hora de ver como é a evacuação do estádio. Hora de ver mais um show do clube inglês (à parte do futebol, é claro!).

Quatro minutos depois do apito final o estádio já estava praticamente vazio. Entendeu bem: um, dois três, quatro minutos. Duzentos e quarenta segundos.

Sete minutos depois do fim da partida eu já tinha descido todas aquelas escadas (que daí entendi: são duas escadas que se separam e se cruzam durante a descida, mas só se encontram novamente na saída lá embaixo). É o número do mentiroso mas é verdade: sete minutos depois do fim da partida eu estava na rua. Provavelmente menos tempo do que tu demorou pra ler este texto. Sem empurra empurra, sem sensação de massa (ainda mais eu e meus 1.65m), sem baderna, sem briga. 15 minutos depois: estação de metrô (10 minutos a mais que o tempo normal, mas mesmo assim OK) e chegando lá a entrada controlada pela polícia evitou super-lotação. Justo. E útil. Chegando na plataforma notei que tinha metade das pessoas do que tinha no trem de ida. Tão Londres.

Fiz todo o trajeto até em casa (leia-se 1h20 – tão Londres) vestindo com orgulho a camisa do clube e mesmo assim sem nenhuma provocação. Nenhuma! Um senhor americano ainda perguntou como tinha sido o jogo e o placar, antes de me pedir informação de como ir até o City Airport.

Foi o primeiro que fui e foi o primeiro de muitos que irei. Quero voltar e logo pro Bridge! Sentir aquela vibe toda da torcida que vou contar agora, não tem preço:

O JOGO
Nunca tinha visto algo assim ao vivo. O apoio da torcida inglesa é algo que arrepia até quem não dá um palito de fósforo por futebol. Mas mais ainda; a torcida alemã do Schalke 04 fez parte do show, devo assumir. Durante o primeiro tempo, mesmo levando um gol contra (Fàbregas, aos 11 minutos! Da-lhe!), os alemães não cansaram a goela e seguiram na cantoria. Arrisco a dizer que eles não ficaram mais de 30 segundos sem demonstrar com orgulho o amor pelo clube. Não à toa: o Schalke 04 foi vice-campeão da Bundesliga, a liga alemã, e é famoso justamente por ter a maior torcida da Alemanha.

Do outro lado do campo a torcida do Chelsea respondia com seus cantos ensaiados e mesmo com toda força na voz conseguia no máximo empatar no quesito grito-pra-cacete. Sim, vou aprender pra ser mais uma voz entoando o orgulho. Mesmo assim, me arrepiei, sim me arrepiei e muito me arrepiei!! Umas dez vezes. No mínimo. O apoio seja na base da voz; ou dos aplausos no passe bem feito, ou no contra-ataque, ou na boa defesa, fez o jogo ficar lindo!

O Chelsea atacou muito mais nos primeiros 45 minutos de jogo, mas claramente mudou a estratégia na segunda metade. Flashback pra Seleção Brasileira na Copa do Mundo, sabe? Os dois times resolveram se defender, mas numa bobeada o Schalke 04 contra-atacou e marcou. E assim terminou: 1 a 1. Um jogo pegado, com poucas – no entanto pesadas – faltas.

Meu pêlos da nuca insistiram em ficar arrepiados. Foram 90 minutos de um show no campo, outro na arquibancada e outro da organização. Civilidade imperando em qualquer um dos fatores. Por vezes me esquecia que estava assistindo o jogo e voltava os olhos pros detalhes da torcida. Não tinha como não. A energia era única! Mas o jogo… Ah, o jogo…

Bah: Desculpa as fotos, foram feitas por celular.

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