GURI IN LONDON

Crônica: a audácia do clichê

Sabe uma coisa que eu acho estranho? As frases prontas. O clichê. Terra da Rainha; país do futebol; terra do Tio Sam; reza a lenda; dizem as más línguas; e por aí vai… E por aí vai… Daí o que o interlocutor faz? Pede perdão pelo uso do clichê usando um outro: “com o perdão do clichê”.
É mais fácil, claro. Acredito até que a linguagem seja por si só o maior dos clichês. Afinal as palavras tão prontas, a construção da frase tem que respeitar as regras gramaticais e na escola aprendemos que um texto (dissertativo, em especial) tem que ter introdução, desenvolvimento e conclusão.
Clichê demais isso, desculpa professores.

Mas tem uma frase pronta que é a que mais me chama atenção e sempre me faz pensar. Aquela do “nunca diga nunca”. Seríamos nós tão imbecis? Não, só estamos usando a frase. Ela tá ali parada, na prateleira do cérebro, esperando o momento de ser jogada pra fora.
Pois eu digo vários nuncas: Nunca perco as esperanças; nunca vou deixar de acreditar nos meus sonhos; nunca vou deixar de dizer nunca, mas que coisa! No entanto reconheço que essa análise vai da visão de cada um, claro: otimista, realista ou pessimista. A gente teria que criar uma prolongação pra esse clichê. Algo do tipo “nunca diga nunca se-for-usar-a-palavra-numa-frase-negativa”.
Ou seria eu que interpreto muito ao pé da letra? Pode ser. Já andei refletindo bastante sobre isso. Pode ser que já esteja sub-entendido que é pra ser usado só em casos de positividade. Eu, com essa mania do pé da letra, é que fico encasquetando.
Pode ser.
Ou não. Pra mim, o “nunca diga nunca” é o livro de auto-ajuda em uma frase. Ele faz refletir, mas não fala nada com nada. O pior dos clichês. Que sejamos então a frase bem pensada, o não-dito. Que sejamos um texto diferente por dia. Jamais o clichê. Nunca!

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