Guri da Crônica

Opinião: esperança por liberdade em todos os sentidos

Pra quem acha que quem mora fora não pode se expressar sobre o que está acontecendo no Brasil, tenho uma novidade pra ti: a gente pode sim.

Morar fora do Brasil não é sinônimo de fuga. Eu mesmo quando deixei o Brasil não foi por odiar meu país e achar que já que não tinha mais jeito e gostaria de tentar a vida em outro lugar do mundo. O que contou mais alto pra mim foi o fato de ter me identificado mais com uma outra cultura.

Mas acima de tudo, assim como muitos moradores do Brasil opinam em questões como Brexit e Donald Trump, não vejo o motivo de eu, um cidadão brasileiro (conferi meu passaporte e tá confirmado – sou brasileiro mesmo) não poder opinar na política do meu próprio país.

Seria isso uma antecipação de algo maior que pode vir a acontecer? Não me refiro a nenhum candidato específico nesta hipótese. Isso porque os dois lados têm apoiadores cegos às opiniões alheias. Se falar a favor do candidato tudo bem morar fora. Na verdade até é bonito, é uma opinião que “até quem mora fora tem, só pode estar certa”. Se falar contra ele, aí a história é outra: “como ousa falar desta maneira de fulaninho tendo tirado os pés do Brasil?” Mas se tu faz isso, não te preocupa, o outro lado também faz.

O acesso fácil à informação, pode informar ou desinformar dependendo do ponto de vista, intenções e da pressa do leitor. Explico: li um texto que dizia que Bolsonaro havia chamado as mulheres de fraquejadas, enquanto o que ele fez na verdade foi dizer que ele havia dado uma fraquejada, e por isso a quinta filha nasceu uma mulher. Ainda assim alarmante, afinal, chama todos e todas que tiveram filhas mulheres de fraquejadas. Inclusive as próprias mulheres.

Isso prova também o quão importante é vários veículos falarem e mostrarem os seus pontos de vista.

O discurso da vitória é um caso a parte. A promessa de liberdade que veio junto com um basta aos pré-conceitos foi redigido por alguém com experiência e com noção de marketing, claro. Este é o momento de unir o Brasil e dar esperança. O que é muito difícil em meio a um embate de palavras que um dia foram encorajadas por um líder e hoje são replicadas por meia nação. Eu opto pela paz, e por estar ao lado do debate. Virando as costas ou me afastando de qualquer problema não vai fazer com que ele se resolva sozinho. Pelo contrário, como um vírus sem cura, vai se espalhando aos poucos. Jamais vou gritar e meter o dedo na cara, apenas questionar, fazer pensar e pensar junto. Porém, se ter uma opinião contrária é entendido como ofensa, já é um sinal de que não há argumento que seja digno de um debate.

Às vezes até o autoritarismo digno da década de 70 e 80 pode vir disfarçado da esperança (e desespero) por uma punição. O The New York Times levou além estas atitudes e publicou um texto de um jornalista brasileiro que teve sua família torturada e presa durante a Ditadura Militar. O jornal concorda com veículos como The Economist, The Guardian e The Times quando falam que Bolsonaro levou uma grande vantagem por estar concorrendo com um candidato do PT, que teve a sua imagem manchada nos últimos anos. O voto em Bolsonaro não é apenas um voto. Pra muitos é um grito de socorro, uma clemência por liberdade a todo custo.

A liberdade a todo custo pode ter um custo alto. Quando não há julgamento, punição ou prudência, a linha entre punição e perseguição pode ficar um pouco apagada. A tal liberdade foi um dos destaques no discurso bem preparado na vitória de Bolsonaro. O próprio London Evening Standard destacou o tom mais leve e mais apaziguador da fala. A liberdade defendida é tanto a de poder andar pelas ruas sem medo, até a de poder se expressar. Também sem medo, livre. A posição é de um governo para todos, o que na minha concepção esperançosa inclui todos mesmo, até as minorias que antes foi falado em se curvarem.

O que tenho apesar de tudo é esperança.

Esperança que este momento seja de reflexão ao Brasil, não só pela renovação do Poder Executivo, mas também nas discussões políticas cotidianas.

Esperança que a promessa de liberdade seja cumprida em todos os sentidos. Nas opiniões, opções ou forma de ser.

Esperança que o brasileiro também mude e não deposite a responsabilidade só no líder. A corrupção começa no teu prato de comida. A exploração e criminalidade começa na roupa que tu pode estar vestindo agora.

Esperança que o brasileiro também mude e não deposite a responsabilidade só no seu candidato. Se votou a favor ou contra, a resonsabilidade de todos os cidadãos é continaur cobrando.

Esperança até que um dia o cidadão aprenda a parar de usar camisa da seleção de futebol em marcha política. Sério, para que tá feio. O The Guardian destacou isso na matéria deles, dizendo que  esta é a marca de muitos apoiadores de Bolsonaro. O que dá pra ver neste vídeo de celebração quando o resultado foi divulgado:

Eu confesso que estava no barco dos que estavam em dúvida em quem votar no segundo turno. Só na véspera e que decidi que pela primeira vez na minha vida (e tenho certeza que a última) iria votar no PT. Não como um voto de confiança ou um voto de apoio. Mas por ser o segundo pior candidato. Votei pela empatia e por pensar em quem está no Brasil, e não pensando apenas no meu interesse. Algumas pessoas deixaram de me seguir ou mandaram mensagens contestando o meu direito de expressão, de opinião ou até de voto – isso que estava me expressando nos meus canais. A estas pessoas eu recomendo não ler mais jornais, não ouvir mais música (Pink Floyd fala de política uau que surpresa hein!) e escolher ficar dentro do seu mundo, onde todo mundo pensa igual e gosta das mesmas coisas.

Enquanto isso eu vou continuar querendo saber a opinião de quem não concorda comigo. Querendo poder aprender alguma coisa em alguma conversa ou debate. Querendo ampliar minha visão e minha mente, e não ficar preso numa armadilha de julgamentos sem saber nem ouvir ou muito menos querer mudar.

Mas agora a mudança vai acontecer, de uma forma ou de outra ela vai acontecer. Muitas mudanças até mesmo quem apoiou Bolsonaro diz ou espera que ele não faça, prometendo “tirar ele daqui quatro anos” se ele não fizer um bom governo. Claro que o que eu mais espero é que ele faça um bom governo, e como um cara otimista que sou, vejo que há potencial pra isso. Minha família, amigos e todos os clientes moram no Brasil, não teria por que eu querer o contrário.

A falada liberdade do outro começa com a nossa tolerância. Começa com deixar de ignorar fatos pra interrogar mais.

Uma coisa que não pode mudar é esta liberdade. Ou melhor, precisa. Pra mais. Quero me sentir ainda mais livre pra falar e me expressar sem sofrer nenhuma retaliação. Espero poder continuar falando abertamente o que penso, independente se o ponto de vista é que vivo em outra realidade; ou que a realidade não é a mesma que a tua. Mesmo discurso, diferentes pontos de vista.

Rafa, um Guri em Londres. Moro em Londres desde janeiro de 2014, sou guia de passeios temáticos a pé pra brasileiros e gosto de compartilhar como é a vida por aqui, além de contar mais sobre a história e cultura do Reino Unido. Sinta-se em casa!

9 Comments

  • Ana Carolina

    Rafa, excelente texto! E foi exatamente isso que me incomodou nessa eleição, não podíamos falar que éramos contra o atual presidente, não tínhamos liberdade pra dialogar com seus eleitores.
    Espero do fundo do meu coração que seja um excelente governo e que não tenhamos nossos direitos caçados!
    Mas escutar dos próprios eleitores, se em dois anos ele não estiver fazendo o que deve a gente tira ele que nem tirou a Dilma, me desespera. A idéia de democracia de algumas pessoas, tá muito errada!

  • Thiago Moreira

    Rafa,
    Parabéns pelo texto, muito bem montado. Da forma que todos os brasileiros, de extrema direita a extrema esquerda, passando pelos de centro deviam seguir. Seguir com respeito e esperança para um Brasil cada vez maior e não com esse extremismo que estamos presenciando. Claro: o nosso futuro presidente é uma pessoa que criou uma apreensão muito grande em mais da metade da população do país. Levando em consideração que Haddad teve 45% dos votos.
    Um abraço,
    E mais uma vez parabéns pelo texto.

    • Rafa

      Vania,
      Deixei minha opinião bem clara no post. Sabe o que a Venezuela tem a ver com o Brasil, com o PT ou comigo? Ou está só replicando o que outras pessoas falam?
      Acho que deixei bem clara minha opinião sobre o PT. Deixei claro que Londres me ensinou que tem um líder extremista não é bom. E Londres me ensinou a respeitar opiniões alheias.
      Fica a dica.
      Fique à vontade pra postar tua opinião no teu blog. Pode ter certeza que não vou lá te xingar ou chamar do que for.

    • Rafa

      Oi?
      Na real eu aprovo todos os comentários antes de serem postados, assim é certo que vou conseguir responder. Calma lá Vania, baixe a guarda!
      Mas seria bom nem ter publicado mesmo, assim já iria se acostumando com a censura.
      Valeu!

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