Guri em Edimburgo (de novo)

por Rafa Maciel, um Guri em Londres

Guri em Edimburgo (de novo)

11/02/2018 Guri no Reino Uncategorized 0

Esta foi minha terceira vez em Edimburgo, mas claro que bem mais especial, afinal foi quando pedi a minha guria em casamento.

Planejo fazer um vídeo falando sobre como foi toda esta história de planejar uma viagem todinha e um pedido de casamento sem nem a Julia desconfiar (que tu acha?). 🙂 Mas por hoje é dia de falar como foi a terceira vez que pisei em Edimburgo.


Quem disse que aparência não é tudo, com certeza falou isso em Edimburgo. As casas e prédios são cinzas como o céu. As árvores e folhas ficam secas, contrastando com as ruas molhadas. Nada muito atraente até aí. Mas a essência da cidade, a atmosfera única e marcante, o que aqueles prédios cinzas e ruas molhadas guardam, isso é o que agrada e deixa a cidade linda como nenhuma outra.

Repeti algumas coisas que fiz da outra vez por desta vez estar com a Julia – e poder levar ela nos lugares e contar algumas histórias que ainda estavam arquivadas na minha cabeça. Um dos locais foi o Elephant House, onde J.K. Rowling começou a tirar da cacholinha dela a história de um bruxo chamado Harry Potter. Como tantos outros lugares pelo mundo, muita gente curte ir lá e ficar imaginando ela escrevendo e a história que tanto fascina a gente nascendo ali, numa mesa qualquer. O café (que pra mim é um restaurante) tem um ambiente todo decorado com tema de elefantes (não surpreendentemente), e seria bem aconchegante não fosse a fila de clientes e o corre-corre dos garçons. O menu é bilíngue em inglês e (se segura!) MANDARIM! Eu bati o olho logo numa trouxinha de espinafre e queijo feta (spinach and feta filo parcel) e foi o tipo de prato que apesar de ser bem servido a gula faz a gente ficar com vontade de comer mais.

Inclusive a Victoria Street, ali pertinho, também tem fama de ser uma das inspirações da J.K. Rowling pra criar o mesmo estilo das lojas do Beco Diagonal.

A Julia não tinha subido no Arthur’s Seat da primeira vez que foi pra Edimburgo, e meu amor é tão grande que aceitei repetir a dose – e também por lembrar que a subida é muito tranquila. No final tem um pouco mais de dificuldade mas no nível te-segura-nas-pedras-ali. Se essas pedras aparecessem no começo da trilha tenho certeza que muita gente não teria curiosidade em saber como é a vista lá de cima e perderiam o cenário deslumbrante pintado com prédios cinzas, chaminés amareladas e uma fumacinha branca de um lado; e um mar azul com barquinhos atracados do outro, um pouco mais distante. O nascer do sol foi nossa missão do dia, e é um ponto perfeito pra ver os primeiros raios que refletem gentilmente nos prédios da cidade, como se quisessem despertar os moradores de um jeito carinhoso e preguiçoso, daqueles que faz dar vontade de ficar dez minutos a mais na cama.

Pertinho dali tem outra atração também repetida, o Palácio de Holyroodhouse (£ 14), a residência oficial da Rainha Elizabeth II (que lá é só Elizabeth, já que a Beth Primeira era rainha somente na Inglaterra). Fotos são proibidas lá dentro, mas a tentação não é como no Palácio de Buckingham ou a Clarence House, por exemplo. A frieza da paisagem de Edimburgo é refletida no interior do palácio, com paredes mais cruas. Os detalhes não estão nos ornamentos do teto mas nas histórias contadas pelo áudio guia que fala a tua língua (aham, português do Brasil). Uma das salas de jantar tinha o tamanho não muito diferente daquela tia que a família passa o Natal reunida – e que a tia jura que é porque todo mundo gosta dela, mas na real é só porque a sala da casa dela é maior mesmo. Clichês de decorações rebuscadas e teto alto não tem muito espaço por aqui.

Até as brigas de família são parecidas: o palácio tem muita relação com a história dos Stewarts, que não termina muito bem quando o James II (e VII na Escócia) foi deposto do trono com o apoio do Parlamento e das suas duas filhas (que mais tarde viraram rainhas #aítemcoisa). Jaiminho deu no pé e foi pra terra firme e segura do outro lado do canal chamada França acompanhado de sua esposa e seu filho. Este filho cresceu aprendendo que ele seria o sucessor ao trono britânico, só que por mais que ele tentasse não rolou. E quando ele teve filho, ele deu mais trabalho que o pai. Tem muitos lugares pelo palácio falando das revoluções de Bonnie Prince Charlie, o Young Pretender.

Foto: Visit Scotland.

Foto: Visit Scotland.

Foto: Royal Collection.

A rua em frente ao palácio é chamada apelidada de Royal Mile justamente por ligar dois castelos de importância à realeza. Na outra ponta está o bem mais imponente e carrancudo Castelo de Edimburgo (£ 17). Nele é onde ficam guardadas as Honras da Escócia, que é o nome bonito que foi escolhido pras joias da coroa escocesa. Fosse em algum outro lugar do mundo (que não vou dizer o nome Brasil) elas não teriam sido esquecidas como foram em 1707, quando houve a união da Escócia e da Inglaterra num reino só, o Reino Unido. Só 111 anos depois é que o escritor Sir Walter Scott (aquele do monumento) recebeu autorização real pra poder abrir uma sala onde elas estavam guardadas pegando pó. Hoje elas estão ao lado da também famosa Pedra de Scone (Stone of Scone).

A Julia pode ser boa pra aparecer em fotos, mas eu nunca vi algo tão fotogênico como o Castelo de Edimburgo. Seja a pose “botando ordem” da Grassmarket, a “olha eu aqui” do topo do Scott Monument ou um selfie, de pertinho mesmo.

Castelo de Edimburgo visto do Scott Monument.

Castelo de Edimburgo visto da Grassmarket.

Isso sem falar na vista do topo do prédio da Camera Obscura (£ 15.50), que oferece binóculos e uma posição privilegiada pra pontos conhecidos de Edimburgo.

Mas nada se compara à vista que se tem de dentro da câmera em si. Câmera com E mesmo, tá certinho. O nome Camera Obscura significa “quarto escuro” em latim – e daí a palavra câmera que a gente usa pra falar da câmera fotográfica (elas ainda existem, sabia?). O nosso guia Ross recebeu a gente com esta história, que já deu mais sentido ao local onde a gente estava: uma sala escura de uns 6×6 com uma luz vermelha bem baixa e uma espécie de bacia branca no meio. Depois dos olhos resistirem muito e se ajustarem à luz baixa do lugar, Ross deu início ao tour de Edimburgo usando o sistema de espelhos e lentes (igual de uma câmera fotográfica) instalados no telhados do prédio. A curiosidade de todo mundo dá lugar a Edimburgo, projetada ali na nossa frente, naquela bacia branca.

O restante do prédio é tão surpreendente quanto esta sala, e cheio de itens pra pregar uma peça na tua mente. Não vou esquecer daquele quadro que parece um simples mosaico, mas ao tentar olhar através dele e fazer um ou dois movimentos leves com os olhos apareceram algumas formas como se fossem figuras em 3D dentro do quadro.

Consegue ver os três tubarões jogando cartas?

A Camera Obscura é bem na Royal Mile mas tão discreto que passou disfarçado de uma loja como qualquer outra das outras vezes que fui pra Edimburgo. O mesmo que o Mary King’s Close (£ 15.50), por exemplo. A entrada fica num prédio em frente à St. Giles Cathedral, que talvez até roube a cena e por isso só agora fui descobrir este emaranhado de becos e histórias debaixo da cidade.

Foto: Mary King’s Close.

Edimburgo é cheia de pequenos bequinhos chamados de “Close”, e três deles foram fechados há séculos atrás pra que a rua ficasse no mesmo nível da Royal Mile e um prédio pudesse ser construído ali. Ou seja, visitar estes bequinhos não é apenas ouvir histórias de uma Edimburgo de anos atrás quando a cidade era muito pobre, quando doenças se espalhavam mais rápido que notícia ruim e quando tudo isso era ignorado por qualquer rei ou rainha que colocasse a bunda no trono. Vai além.

Foto: Mary King’s Close.

Vai pro pessoal mesmo, com casos de pessoas que eram separadas por doenças severas ou por desavenças familiares. Algumas são lembradas através das histórias dos guias, e dizem que outras não se deixam ser esquecidas por continuarem assombrando o lugar.

Foto: Mary King’s Close.

Como a atmosfera e a cidade são propícias pra estes tipos de histórias, o que surpreende de verdade é ter casas de mais de 300 anos resistindo no mesmo lugar e com tanta história tão acessível. O tour termina no local mais importante, o “Close” mais importante: o Mary King’s Close em si. Ali não é difícil imaginar o vai-vem de pessoas e histórias.

Foto: Mary King’s Close.

Ver este tipo de lugar me faz refletir sobre a condição de vida que eu e grande parte das pessoas têm comparado à época. Voltar pro hotel e ver tudo organizado, funcionando, com o máximo de conforto possível dá um motivo a mais pra agradecer, ainda mais no caso do apartamento que ficamos, o Stay Edinburgh City Apartments (217 High Street, EH1 1PE).

Ficamos em um apartamento no último andar do prédio. Pela janela uma vista linda dos terraços de Edimburgo e o som distante de uma gaita escocesa, enquanto lá dentro a gente cozinhava uma massa simples enquanto bebericava um vinho branco geladinho.

O apartamento é muito funcional, com máquina de lavar roupa e louça (duas máquinas, só pra esclarecer), aquecedor, fogão, TV, microondas, forno e uma cozinha equipada. Pra localização ser mais privilegiada, nem se fosse em algum dos palácios, porque ele fica bem na metade da Royal Mile, entre um castelo e outro. Fácil de chegar em qualquer lugar, inclusive no mercado, pra poder escolher o que quer cozinhar pro café da manhã ou pro jantar, por exemplo.

Eles tem várias outras unidades, algumas maiores e outras menores. Também oferecem a opção de ter um kit de café da manhã no apartamento, caso queira um pouco mais de mordomia. Saiba mais e reserve aqui.

É possível Edimburgo surpreender mesmo sendo a terceira visita? Não sei se ela muda tanto ou eu mudo tanto. Sabe quanto faz tempo que tu não vê uma pessoa e quando vê ela tá bem diferente; sendo que quem convive todos os dias com ela não nota diferença nenhuma? Ou quando tu conhece um casal de gêmeos idênticos, idênticos, sendo que pra família eles são tão diferentes quanto pagode e valsa? Isso é o que eu sinto que Edimburgo faz comigo: cada vez que eu vou pra lá eu sinto que eu evolui e cresci (não fisicamente, claro) como pessoa e profissional. Me dou conta que quando visitei o mesmo lugar 12 meses antes eu tinha uma cabeça muito diferente da que tenho agora, e isso me faz refletir de como eu serei daqui a mais alguns meses, quando resolver fazer a mala e ir pra Edimburgo de novo. Será que ela vai estar do jeitinho que eu deixei ela? Porque eu não vou estar do jeitinho que ela me deixou.

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