Escócia,  Guri no Reino

Guri em Edimburgo, Escócia

Esta era uma viagem que queria fazer desde a primeira vez que vim pra Londres. Como uma pessoa que cresceu em uma vila de poucas pessoas nos Campos de Cima da Serra Gaúcha eu suspeitava que iria me apaixonar pela Escócia. Num belo dia programando uma outra viagem eu pensei em dar uma olhada neste sonhado roteiro e quando me dei por conta estava inserindo os dados do meu cartão pra fazer a compra das passagens – que diga-se de passagem já decorei, de tanta viagem que comprei ultimamente

Não entenda por esta afirmação que enriqueci. Não não, caro leitor. As viagens pela Europa são mesmo baratas. Pra que se controlar? Nesta da Escócia foram £ 55.80 ida e volta pra Edimburgo, e mais £ 16.80 pra fazer Edimburgo/Glasgow/Edimburgo. Isso de trem.

A localização privilegiada do meu hostel, o Castle Rock, ajudou bastante no dia a dia da cidade. Ele fica pertinho do imponente Castelo de Edimburgo, meio que ao lado dele (até por isso o nome Castle Rock). Caminhar por Edimburgo é muito fácil. As principais atrações turísticas ficam próximas umas das outras e explorar cada beco é convidativo e delicioso de se fazer. Na parte da cidade velha, onde está o castelo e outras das principais atrações, os prédios tem uma cara triste, todos de pedra, gastos e com um ar misterioso de quem tem muita história pra contar, mas prefere guardar algumas delas pra si mesmo.

O Elephant House

Não tem um lugar só de elefantes em Edimburgo. Não. O café Elephant House foi onde J. K. Rowling escreveu boa parte de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Pelo que as fotos históricas mostram na parede não era só a autora que estava diferente no início da década de 90, mas o próprio café também. Hoje, por exemplo, a plaquinha da entrada informa que não tem wifi e encoraja os visitantes a fazerem de conta que é 1994 e conversar um com o outro. Também diferente da época são os anúncios em diferentes idiomas, inclusive mandarim.

A decoração lembra a casa de uma avó que voltou a recém da ásia e descobriu os elefantes como peça de decoração. A comida também lembra a casa de uma avó. Muitas das opções são simples, mas deliciosas.

Victoria Street

Por falar em Harry Potter, a Victoria Street é tida como uma das inspirações de J.K. Rowling para o beco diagonal. Não no estilo arquitetônico mas sim pelas lojas. Lojas de antiguidades são vizinhas de alfaiates e de livrarias. Entrei numa destas livrarias e entendi melhor o motivo da inspiração.

Um senhor de meia idade, sweater e óculos com um braço cruzado na frente da barriga e o outro com a mão levada ao queixo conversa com uma voz baixa e suave com outro senhor. Este segura uma sacola de pano e ouve atentamente as observações sobre uma obra que não entendi qual era. Nas duas paredes da livraria, o que se espera de uma livraria: livros. Muitos. Especialmente com aspecto mais surrados, que já passaram por muitas mãos. Mais ao fundo uma escada, aquelas de filmes, pra pegar os livros mais ao alto. Uma olhada rápida, toco alguns destes livros como se estivesse buscando algo em particular, e percebo como o silêncio é contrastante com o vai-vem de gente que vejo pela janela. Que calmaria!

Greyfriars Bobby

John Grey era um policial de Edimburgo e adorava o seu skye terrier peludinho, como eles sabem ser, chamado Bobby. Em 1858 John faleceu e foi enterrado no cemitério da Greyfriars Kirk (ou church, igreja). Desde então, por 14 anos seguidos Bobby ficava junto do túmulo do seu dono, cuidando, guardando, ou apenas esperando comida – que é a teoria de muita gente sem coração. Ele só parou de ir porque sua morte também chegou, mas ele foi enterrado próximo ao túmulo do dono.

Logo ao lado da igreja tem hoje um pub que homenageia o cachorrinho enquanto oferece boas cervejas e um ambiente de luz baixa, carpete e mesas de madeira pra turistas e moradores. Em frente ao pub, uma estátua do Bobby já está com o focinho gasto depois que descobriram que dar uma esfregadinha nele traz sorte.

Royal Mile

Este é o nome dado à rua que liga o Castelo de Edimburgo ao Palácio de Holyroodhouse, no meio da Old Town, a cidade antiga. A rua tem algumas atrações turísticas, restaurantes tradicionais e muuuuitas lojas de souvenirs, roupas com xadrez, kilts, brasões, etc. Alguns cafés bem convidativos também estão no caminho e não pense duas vezes ao ver um shortbread. Esta bolachinha (ou biscoito, depende de onde do Brasil tu for) é bem tradicional pela Escócia. Se acha fácil no mercado também, mas o de um café geralmente tem um gosto mais de casa. Ele é bem amanteigado e uma companhia ótima pra uma xícara de chá.

Palácio de Holyroodhouse

O Palácio de Holyroodhouse ainda é usado pela rainha e pela família real, assim como o Palácio de Buckingham. Pode-se visitar quando não está em uso oficial – o que, calculo, deve acontecer uns 350 dias por ano. Tem que se conter várias vezes pra obedecer a proibição de fotografar o interior, as obras e as paredes e detalhes, muito datando do século XVI.

Assim como a arquitetura de Londres e de Edimburgo são bem diferentes, os seus principais palácios também assumem essa identidade. Enquanto Buckingham tem um interior imponente, com detalhes em ouro e centenas de objetos decorativos, o primo escocês dele não é tão suntuoso. Não que tire o brilho, claro. Isso porque na época da construção o Reino da Escócia era separado e não tão próspero quanto o Reino da Inglaterra. Ele é de pedra, o interior tem algumas paredes em madeira, teto baixo e com decoração mais simples. Ainda assim tem espelhos e paredes decoradas da forma mais cuidados possível com candelabros ou relógios de mesa que parece que foram esquecidos de épocas passadas sob as mesas e lareiras que muito desta história já viram.

Além de toda a arquitetura magnífica do palácio (os detalhes em gesso no teto são demais!), o Palácio também foi palco de muitas e muitas histórias. Como aquela…

DA MORTE DE RIZZO

Mary, uma Rainha escocesa de nariz pontudo no auge de seus 23 anos, aos 6 meses da primeira gravidez, estava meio abandonada por parte de seu marido, Lord Darnley. Darnley, por sua vez, era conhecido por se dar bem com as mulheres e não queria saber de descanso. Ele ia às tavernas e bordéis com os amigos atrás de diversão. Ele não queria saber do filho (o futuro Rei James VI da Escócia e James I da Inglaterra).

Mary sentia-se sozinha, é claro, então tinha companhia de alguns amigos próximos, entre eles o seu secretário pessoal: David Rizzo, um italiano de 33 anos que era conhecido por ser um ótimo músico. Ele até cantava e jogava cartas com a Rainha. Mas afinal, quem não o faria?

Todos estavam se divertindo, é o que tu deves estar pensando, certo? Mary com o italiano Rizzo, Darney com seus amigos. Todo mundo feliz, que dias legais. Maaaas aí que tu te enganas: os “amigos” de Darnley colocaram na cabeça dele que Rizzo estava tendo um caso com sua amada esposa, alguns chegaram a dizer que o futuro rei que estava pra nascer teria descendência italiana,  da parte de Rizzo. Começaram já a fazer um plano de matar o cara. Aquele, sim, que estava cumprindo o papel que ele deveria o fazer, sem trair, sem consumar nenhum ato até onde se sabe, ok.

Pois bem, plano traçado, tudo certo, e lá se foram: no dia 9 de março de 1566 (veja só há quanto tempo!) chegaram no Palácio de Holyroodhouse Darnley e seus amigos, batendo pé escada acima e ordenando a Mary que os deixasse a sós. A Rainha disse que na-na-ni-na-não. Mary não era boba e percebeu o que estava pra acontecer. Disse ela que isso seria um ato de traição, meu caro. Isso sim, seria traição, e não a relação que os dois tinham – que na cabeça do doido do marido dela era traição.

Rizzo, se aproveitando do suporte da monarca, se escondeu atrás do vestido dela, aqueles bem armados, mas foi pego e arrastado pro quarto ao lado. Ali foi esfaqueado. Não uma e nem duas, mas 55 vezes. Lord Darney que era tão macho não quis meter uma facada sequer. Mas deixou o seu punhal cravado em Rizzo pra registrar sua cumplicidade no caso.

Precisava? E menos de um ano depois o próprio morre, só pra deixar claro. Mary nunca o perdoou por aquela noite.

FIM.

Visitando o Palácio tu tem oportunidade de pisar no exato local onde isso tudo aconteceu. No quartinho onde eles estavam, no quarto da Rainha e onde Rizzo foi deixado esfaqueado. O áudio-guia (que inclusive tem disponível em português do Brasil) conta esta história também. Podes ver ainda a janela da qual Mary enxergava a Abadia, ao lado do Palácio, e fazia suas orações diariamente. As ruínas desta Abadia são visitadas ao final do percurso, também com explicação do guia. Ela foi seriamente afetada durante a Reforma Protestante e em 1768 ela foi abandonada depois de o teto desabar.

Mas não se engane, alguns reis chegaram a ser coroados nesta Abadia, como o Rei James V, pai da mais tarde Rainha Mary.

Scotch Whisky Experience

Na outra ponta da Royal Mile, pertinho do histórico e imponente castelo de Edimburgo, está a Scotch Whisky Experience. Um nome que tem tudo pra dar errado e ser um baita pega-turista. Mas não poderia estar mais errado.

Ali que descobri que um bom whisky escocês é caracterizado pelo processo de fabricação, barris e o malte; que o whisky é responsável por 20% da exportação de bebidas e comidas do Reino Unido; e que inclusive o fundador do whisky irlandês Jameson (John Jameson) era escocês. Oops.

Pra um scotch whisky ser chamado de scotch whisky ele precisa maturar por no mínimo três anos em barril de carvalho. E isso precisa acontecer em solo escocês. Mas afinal, qual a diferença? Isso é colocado à prova quando a guia explica as regiões onde o whisky é destilado e como o sabor e o aroma muda de uma pra outra. Pra ficar ainda mais claro, uma provinha é servida.

Numa das salas a guia fica no meio de todos falando, falando, falando. Este é o trabalho dela, claro (e o meu). Mas as câmeras estão ocupadas apontando um outro assunto: a maior coleção de garrafas de whisky do mundo. Quer uma surpresa? Quem começou a coleção não era escocês. Ela foi comprada por eles e levada de navio pra Edimburgo. De onde? Isso aí, do Brasil.

Claive Vidiz começou a colecionar garrafas de whisky por mais de 40 anos, tanto que hoje muitas das 3300 da coleção tem um nível bem menor, longe de ser uma garrafa cheia, mesmo estando fechada. A evaporação é mesmo um pé no saco. Melhor beber logo antes que a garrafa fique vazia do nada.

Arthur’s Seat

Não tinha lido muito a respeito, só o que sabia é que era a atração número #1 de Edimburgo segundo o TripAdvisor. O motivo? A ponta do Arthur’s Seat fica há 251m de altura e é possível ver toda a capital escocesa lá de cima. Não só a Royal Mile, não só o castelo que pode ser visto de qualquer lugar, mas até a parte de mar, campos, arredores, tudo.

Antes de subir, olhando pra pontinha onde dá pra ver algumas pessoas, parece que vai ser uma subida complicada. Mas a trilha é marcada e uma parte é por um gramado tranquilo de se caminhar. Alguns dois momentos em que as pedras servem pra se segurar, é preciso erguer a perna um pouco mais pra dar uma “mini-escalada”, mas nada que exija um super preparo físico, claro.

Lá em cima o ar é mais gelado um pouco. Mas tudo bem, o corpo agradece pra amenizar o calor da subida. Sentadinho num ponto com vista pra cidade cruzo as pernas e observo. A cidade paradinha, só um som leve saindo daquilo tudo, uma buzina que outra de vez em quando, enquanto o céu começa a assumir uma cor mais avermelhada e o sol se prepara pra ir dormir. Como o caminho não tem iluminação, não chego a ver o sol se pôr por completo, mas já descansado faço o caminho de volta com a certeza que voltaria numa outra oportunidade.

Baked Potato Shop

Exercícios envolvem fome, claro (bela desculpa) e o Baked Potato Shop conquistou meu coração. Eles não tem site mas tem Facebook. Assumo que sou meio louco por batata, mas não é apenas isso.

Um prato, se é que podemos chamar assim, que é bem tradicional da cozinha britânica é a jacked potato. Uma batata assada e depois recheada com o que quiser. Mas na Baked Potato Shop os recheios são criativos, vegetarianos e baratos. Não tem mais que quatro lugares pra sentar, é pequeno, mas não se acanhe se precisar dividir a mesa com outras pessoas.

É extremamente bem servido e bem saboroso.

Pub crawl

Na busca por um karaokê (sim, me deixa) acabei indo pra um pub chamado The Globe. Lá encontrei o chinês que estava no mesmo quarto que eu no hostel e ele disse com um ar de convite que estavam esperando começar um pub crawl dali a pouco por só £ 7!

WHAT?

Sim, £ 7 e te dá direito a cinco shots (dois de tequila, dois de whisky e um de vodka ou sambuca), um jägerbomb (a deliciosa mistura de jägermeister com Red Bull) e a entrada em um club. Também te dão uma pulseira que garante desconto em pubs pelo caminho. Pra ter uma ideia, uma pint de Guinness chega a custar £ 3 graças ao tal desconto. Se quiser saber mais sobre o pub crawl eles tem uma página no Facebook que tem os detalhes. Eu tenho um pub crawl em Londres, mas mais voltado pro lado histórico.

Uma das paradas, caro leitor, é em um bar brasileiro chamado, claro, “Boteco”. O pub crawl é uma ótima oportunidade pra fazer novas amizades, trocar contato e experiência e dividir histórias. Conheci três gurias brasileiras que estavam estudando em Dublin; três suíços; dois canadenses; além do resto do grupo que nem cheguei a conversar. Ah… O guia era dos Estados Unidos. Não sei de onde porque quando perguntamos ele respondeu “de um monte de lugares”. Deve ter nascido num carro viajando entre várias cidades, imagino eu. Enfim…

*

Edimburgo termina por aqui, mas não a Escócia. No dia seguinte peguei um outro trem e pra ir até Glasgow e as Highlands escocesas. Mas isso é assunto pra um outro post e outro vídeo, claro. Mas saí de Edimburgo com ótimas impressões da cidade e dos moradores. Uma cidade que deu gosto de visitar e que foi ótimo ter passado algumas noites, mesmo que poucas, nela.

Se quiser ver posts de outros lugares que já visitei tem um menu com alguns países ali do lado direito da página. Fique à vontade, tá?

Planeje sua viagem com os parceiros que eu confio e uso:

6 Comments

  • Leandro Silva Rovani

    Ótimo teu post sobre Edimburgo, bem como os teus vídeos no youtube.
    Estou programando uma viagem ao Reino Unido pra meados (abril ou maio) de 2018 (sim, eu me planejo).
    Vou viajar com esposa e 2 filhos (terão 9 e 6 na viagem). Embora eu vá ficar umas duas semanas por lá tenho sérias dúvidas quanto a quebrar minha hospedagem em Londres e passar duas ou 3 noites em Edimburgo, por causa das crianças e toda a logística.
    Tu achas que é muita loucura eu fazer um bate e volta no mesmo dia pra Edimburgo (tipo, chego lá às 11h e me vou às 20h)? Ou vou ficar deprimido por ficar um dia só?
    Abraço pra ti, Rafael!

    • Rafa

      Oi Leandro! Obrigado, fico feliz que esteja curtindo. 🙂
      Eu sinceramente não recomendaria isso não… Edimburgo merece no mínimo uma noite. Além de gastar muito, o tempo perdido (quase 5 horas no trem) não compensa. Se ficar uma noite já é outra história. Vale a pena incluir o país no roteiro.
      Valeu, abração!

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