Brasil

Guri nos cânions do Rio Grande do Sul

“O Fortaleza é bem mais bonito que o Itaimbezinho” foi o que sempre ouvi de quem já conheceu os dois cânions no Rio Grande do Sul. Depois de visitar o Itaimbezinho, no primeiro dia pela região de Cambará do Sul, duvidei que o outro cânion, a alguns quilômetros do primeiro, pudessem superar aquela beleza e grandiosidade.

vacas na beira da estrada que vai até o canion do itaimbezinho em cambara do sul, rio grande do sul

As estradas que levam aos Parques Nacionais Aparados da Serra e da Serra Geral exigem paciência e o exercício principal do caminho é relembrar que o final daquela estrada vai valer a pena. Pelo menos é o que todo diz. Na real o que todo mundo diz é que o Fortaleza é mais bonito, mas optamos (talvez até por isso) por começar visitando o Itaimbezinho. Aparecem pedras de todos os tamanhos pra fazer parceria com os buracos pela estrada e cada osso do corpo é chacoalhado. O percurso depois de Cambará do Sul até a entrada do Parque Nacional dos Aparados da Serra é de 16km, mas a estrada do chão limita o tempo em meia hora.

demarcação de trilha com placa para caminhar ou pedalar na trilha do vértice, no cânion do itaimbezinho em cambará do sul, rio grande do sul

A trilha do cotovelo é a primeira que recomendo, porque é a mais “demorada”. São três quilômetros pra ir mais três pra voltar, e o caminho é tranquilo e sinalizado. É caminhar por estrada de chão batido e um par de pontes. Nos últimos metros é que a paisagem esperada aparece e um mirante facilita a apreciação. A grandiosidade espanta. Aqui em cima Rio Grande do Sul. Lá embaixo Santa Catarina. No caminho paredes de pedra com algumas manchas de verde de vegetação que insiste em aparecer; e quedas d’água que emitem um som tão alto e desafiador que coloca respeito – e não medo. Os olhos não sabem pra onde apontam.

Vista do cânion itaimbezinho, rio grande do sul

Os meus decidem acompanhar o movimento circular de alguns urubus que sobrevoam a fenda. “Qual será a sensação?” eu pensava. Ver tudo aquilo daqui já é impressionante e libertador, mas imagina que sorte a daquele urubu, poder explorar tudo lá de cima. E olha a nossa sorte, de pegar uma tarde de céu azul e boa visão.

rafa, guri in london, homem olhando a paisagem a partir da trilha do cotovelo no itaimbezinho, rio grande do sul

A trilha segue mais um pouco, uns 700 metros, ainda pela borda do cânion. A paisagem muda um pouco mas continua de fazer o queixo cair. Voltando pela mesma trilha se chega ao centro de visitante, onde a trilha do Vértice também começa. Esta é mais curta mas nem por isso menos bonita. Os mirantes são bem posicionados e a cachoeira é o que mais prende meus olhos e ouvidos. Acompanho os movimentos dela como se estivesse acompanhando os movimentos simples mas com técnica de um baterista de jazz.

por do sol a partir da trilha do vértice, no itaimbezinho, rio grande do sul

A decisão de ir primeiro na Trilha do Cotovelo por ela fechar mais cedo foi precisa e sábia. Na do Vértice pegamos o pôr do sol que será pra sempre um dos mais memoráveis da minha vida. O céu pintado de laranja e outras cores quentes contrastam com o ar já um pouco frio do fim de tarde a 1000 metros de altitude, e tudo é enfeitado pelas araucárias que dão mais vida e paz ao momento. É difícil deixar essa paisagem pra trás. As memórias, pelo menos, vão ficar pra sempre.

por do sol com pinheiros de araucaria na trilha do vertice, no itaimbezinho, rio grande do sul

“Como pode o Fortaleza ser mais bonito que isso?” eu pensava. “Impossível.”

Depois de enfrentar a estrada de chão com cerração da Serra do Faxinal e se resguardar por algumas horas ao redor da lareira no Refúgio Ecológico Pedra Afiada, no dia seguinte passamos pela mesa estrada (de dia, tá tudo bem) pra descobrir se a fama do Fortaleza faz sentido.

Depois de Cambará do Sul, o trecho de asfalto é bem cuidado e com avisos pros motoristas maneirarem, em prol à vida selvagem da área. Tudo bem, até porque o caminho é daqueles de ficar de boca aberta mesmo, típico dos Campos de Cima da Serra. Isso até chegar nela: a estrada de chão. De novo. Mais 9km – feitos a 30km/h em 20 minutos. No caminho tem uma guarita de acesso que não entendo a utilidade e nem os gestos de quem está dentro dela. Só a parte que entendi foi quando ele mostrou quatro dedos. OK, mais quatro quilômetros de chacoalhadas. Vai valer a pena. Será que é mais bonito que o outro mesmo?

Sim. Muito.

vista do canion fortaleza a partir do seu mirante, em cambara do sul, rio grande do sul

A trilha em si é mais legal por ser mais íngreme, ter algumas partes que exigem mais pernas e fôlego (nada muito pesado) e a emoção de “será que vai ter nuvens?”. A pontinha do penhasco pode ser vista desde o início da trilha não sinalizada de cerca de 40 minutos até o topo. As nuvens vinham e iam embora, dando lugar a outras logo depois e assim ia. Era só o que faltava.

Mas não, quando chegamos no topo elas foram embora. Deixaram só a imensidão pros olhos. Um vale de vegetação densa com pequenas quedas d’água e seus sons bem mais leves do que no Itaimbezinho. Logo ao lado, no horizonte que parece perto mas é longe, dá pra ver o litoral gaúcho e catarinense. Torres, segundo o GPS. Do outro lado, na borda do cânion, o penhasco. Os mil metros que separam os dois estados – e que se resume a um ou dois passos. Sem proteção, sem mirantes. Tudo como é.

Lá embaixo um calmo Rio da Pedra , na descida uma mata fechada e lá em cima a paz e tranquilidade dos Campos de Cima da Serra. Diferentes tons de verde em cada lugar, às vezes mudando conforme as nuvens acima se mexiam, deixando os raios de sol refletir naquela paisagem ou não.

vista do cânion fortaleza e dos campos de cima da serra em cambara do sul, rio grande do sul

 

Por falar nelas, lá vem elas de novo. Encobriam a paisagem toda, mas como se fossem cortinas gigantes, em questão de um minuto tudo já se revelava novamente. Teve um efeito até diferente, de descobrimento e renovação.

Enquanto esse espetáculo de paz acontecia naturalmente, no chão, pertinho de nós estava um passarinho. Ele voava um pouco e baixinho, mas mais corria do que voava. Não sei se buscando comida ou a família dele. Chegava perto do cânion mas parecia com medo, parecia que não queria enfrentar aquela imensidão. Ah se eu fosse ele…

rafa guri in london homem olhando o cânion fortaleza no rio grande do sul

Deixar tudo isso pra trás exigiu uns bons minutos, vários agradecimentos, respiradas fundas e momentos de silêncio. E a promessa de que voltarei. Depois de 17 anos morando a uma hora e meia dali, agora quero voltar. Tenho até vergonha de nunca ter ido antes. Mas tudo bem, tudo está lá. Posso visitar sempre que quiser, seja pessoalmente ou fechando os olhos.

Já foi? Me conta o que achou? E quando for, volta aqui pra me contar também, pode ser?

mulher caminhando pela trilha do vertice no cânion Itaimbezinho com estrada fácil de caminhar

COMO CHEGAR AOS CÂNIONS

Recomendo pegar um voo até Porto Alegre e alugar um carro para ir até Cambará do Sul. Combine com a ida até Gramado, Canela, Caxias do Sul e até Lajeado Grande.

Não tem onde comer ou comprar água nas proximidades, especialmente do Fortaleza, então leve tua água e uns snacks. No Fortaleza não tem nem banheiro, por exemplo, então vai ser uma experiência de natureza bem completa. As trilhas são fáceis e rápidas.

O Itaimbezinho tem mais estrutura que o Fortaleza, mas ambos tem estrada de chão pra acessar (16km ao Itaimbezinho e 9km ao Fortaleza). Nos mapas abaixo o local destacado é o estacionamento dos cânions. A partir dali, estando no Itaimbezinho é só seguir as placas, e no Fortaleza o instinto. Tem duas estradas. Uma tem fim assim que começa, e a outra te leva pro lugar certo. =)

Cânion do Itaimbezinho:

Cânion Fortaleza:

pôr do sol com araucária no cânion Itaimbezinho, rio grande do sul

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