GURI IN LONDON

Coragem gera progresso

No último final de semana fui em um casamento numa cidadezinha do interior da Itália chamada Belluno. Foi minha segunda vez na cidade, e muita coisa foi como na primeira: comida boa, receptividade gigante e paisagens lindas.

Belluno, afinal de contas, está no Vêneto, e aí basta uma busca rápida no Google pra ficar de boca aberta (e salivando) com as fotos. Um lugar bem inspirador que rende um bom tanto de reflexões – então não te surpreenda se vierem mais por aí. Este é apenas um dos devaneios que tive enquanto via a paisagem pela janela do trem.

O casamento é um momento tão importante e principalmente intenso na vida do casal, que claro que eles querem dividir com amigos e familiares. Todo mundo então se reúne pra ouvir o que a tradição manda ser dito e exala vibrações positivas, desejando tudo de melhor pro casal.

No entanto, o que mais me chamou atenção nos três dias que fiquei por lá não foi a cara de invejoso do tiozinho no fundo da igreja, as diferenças de tradições no casamento, ou qualquer outra coisa. Foi na verdade a relação próxima que a região tem com o local de onde eu saí, a Serra Gaúcha. Alguns nomes de regiões, cidades, bairros e sobrenomes já me eram familiares, afinal foram levados pelos imigrantes italianos pro Brasil há 140 anos atrás. Bassano, Milano, Pádua e Roma ganharam filiais brasileiras denominadas Nova Bassano, Nova Milano, Nova Pádua e Nova Roma do Sul.

Dali daquele pedaço de chão saíram algumas jovens famílias com algumas histórias na mala e alguns sonhos na cabeça, pra tentar reconstruir a vida do outro lado do oceano. Nenhuma garantia, apenas promessas e muita esperança. Ironicamente, graças a estas promessas, esperanças e principalmente coragem, é que eu e muita gente somos hoje capazes de fazer exatamente o mesmo: colocar tudo numa mala e atravessar o oceano em busca de novas oportunidades e experiências. Também não há garantias, apenas promessas e esperança.

Diferente da época, no entanto, não estamos colonizando nada. Estamos começando apenas uma nova fase própria, e não uma nova cidade. Já em 1875 o italiano trabalhador teve que colocar a mão na massa e fazer o negócio acontecer, passando por cima das dificuldades, pisoteando elas, não tinha nem tempo pra elas. Não se tem registro de reclamações, até porque não existia Facebook ou Twitter na época. Claro que os lamentos deveriam existir, mas deveriam ser logo calados pelo martelar de um prego e tudo começava a andar. E veja bem: isso é uma coisa que, mesmo 140 anos mais tarde, também não mudou. Não importa a geração ou o lugar do mundo, é só isso que precisa ser feito pras coisas mudarem e melhorarem. A ação.

O lamúrio não teria levado aqueles italianos a lugar nenhum a não ser à desmotivação e regresso. Na verdade nem isso era opção, já que não havia condição de voltarem pras suas origens. A via era de mão única: trabalho e progresso. A cidade de onde saíram não foi abandonada. O povo que lá ficou não foi covarde. Bem pelo contrário, afinal tiveram que lidar com as dificuldades de um país em crise e tentar se reerguer. Também resistiram, também passaram por cima e tam∫ém viraram o jogo, deu pra notar isso neste final de semana.

O progresso chegou. Tanto pros italianos que saíram quanto pros que ficaram. Ambos tentavam se reerguer, ambos trabalharam, ambos conseguiram. Nos momentos de crise é que acaba surgindo sabe-se lá de onde as mais incríveis forças. As oportunidades aparecem, mas na maioria das vezes são criadas por nós mesmos, não importa se fomos ou se ficamos. Aos que gostam de etiquetas, podem chamar este progresso de sucesso. E tomando o rumo certo, ou no mínimo algum rumo, pode contar que este progresso vai chegar pra ti também.

***
Daqui uns anos, quando estiver com meus filhos na minha casinha na Escócia, vai ser interessante ver eles fazendo este mesmo tipo de reflexão. Talvez até visitando a Serra Gaúcha e vendo onde um dia minhas raízes estiveram.

***
Pelo que um par de italianos me comentou durante o casamento, a sorte que não foram os italianos do sul da Itália que se mudaram pro Brasil, senão o caos de hoje seria ainda maior.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *