GURI IN LONDON

Crônica: Minha casa não é mais minha casa

Há uns meses eu visitei o Brasil pela segunda vez desde que mudei pra Londres. Ao chegar na casa que eu passei meus 17 primeiros anos de vida ela estava vazia. Não de móveis. Não, eles ainda estavam lá. Nem de histórias, isso ela tem de monte – ou minha cabeça tem. Estava vazia de algo que não sei explicar. Era como se eu estivesse visitando um amigo dois anos depois da última vez que o vi e ao encontrá-lo veio uma certa decepção de como ele havia parado no tempo.

A casa não tem culpa, eu é que tenho. Fui eu quem abandonei ela há uns anos pra ir pra outra cidade e depois pra outro país. Eu adquiri novos hábitos, conheci novas pessoas, conversei, ouvi, comi, aprendi. Ela não. Meu pai seguiu a vida na casa da namorada e depois com meu irmão por causa de uma doença. Então a casa não conheceu ninguém novo, não foi a lugar nenhum, não teve nenhuma experiência que pudesse mudar a personalidade dela. Ela parou no tempo. Até as casas vizinhas olham pra ela com pena, porque uma pessoa ou outra vai visitar ela a cada semana. E olhe lá.

Ao menos a gente conversou e a casa entendeu a minha mudança. Ela ainda me acolheu bem, apesar de não ficarmos cem por cento bem na presença um do outro. Eu buscava por itens que ela nem sequer conhecia e na televisão ela me mostrava coisas que eu nem sequer conhecia. Mas tudo bem. Ela gostou do novo eu, até porque eu tô feliz e eu mesmo gosto do novo eu.

Mesmo que ela tivesse seguido um novo rumo eu tenho certeza que não teria sido o mesmo que o meu. Pode ser que eu encontrasse ela tatuada e cheia, mais animada e positiva que eu, mas mesmo assim diferente. Do jeito dela.

Cada pessoa que passa a cada dia que passa influencia de alguma forma na mudança da personalidade e do caráter da gente. Seja algo na forma de se vestir, na forma de ser ou na forma de segurar o garfo. Por isso acho tão importante me relacionar com outras pessoas e não com uma televisão. Assim a gente pode escolher quem pode ajudar a moldar nossa personalidade. E outra, ignorar este processo de mudança não significa apenas parar no tempo mas sim praticamente dar um passo pra trás.

Se eu mudo, por que o local que eu chamo de casa não pode mudar também? No fim das contas é só um endereço. O que importa é o sentimento e o agora. O que é a casa se não o local que nos faz se sentir no lugar mais seguro do mundo?

E também o importante é lembrar que este novo eu não é definitivo e a surpresa do que vai ser diferente é o mais divertido desta jornada. Já avisei isso pra minha casa de Lajeado Grande. Quando eu voltar eu vou estar diferente. Nem eu sei o que ou como, mas seja dentro ou fora de mim alguma coisa vai ter mudado. E com certeza vai ser pra melhor. Sempre é.

14 comentários sobre “Crônica: Minha casa não é mais minha casa

  1. João Paulo Arthur

    Belo texto! Representa muito bem a vida da gente, sempre buscando melhorar em algo. Pode não parecer muito aos olhos dos outros, mas internamente sabemos o quão duro foi chegar até aqui e o quanto ainda falta. Parabéns!

  2. Mauricio Casale

    Fala, Rafa!

    Poxa, muito legal seu texto! Aliás, aproveitando a oportunidade, o seu canal também é muito legal! Você é um cara que produz cultura e transmite conhecimento.

    Ficaria feliz se pudesse ler mais textos como esse.

    Grande abraço!

    1. Rafa Autor da Postagem

      Que demais Maurício, fico muito feliz que tenha curtido. Obrigado pelo feedback e pelas palavras de carinho.
      Obrigado também pela motivação, tudo de BEM!

  3. FLADEMIR CANDIDO DA SILVA

    Depois que participei de um passeio pelos os pubs de Londres com o Rafa, também tive a impressão de que minha casa não é mais minha casa. Não sei se foram as cervejas tomadas ou o clima cosmopolita de uma cidade que permite ver o quanto se perde em ficar num só pub, numa só casa, num só país, numa só “patota” ou só num só círculo (vicioso).
    Não, não foram as “cervas”, o ciclo da virtude passa por questionar a individualidade no contexto em que vivemos, o quanto somos o que somos, em função destes acidentes do destino. O que poderíamos ser se estivéssemos em outras casas, se tivéssemos outra herança familiar, se conhecêssemos outros amigos ou se vivêssemos em outros tempos?
    -Chega, num próximo Pub divagaremos mais sobre isto! Abraço, Rafa!

    1. Rafa Autor da Postagem

      É uma boa reflexão a se fazer Flademir. A gente conversa sobre com uma pint na mão, tenho certeza que vai longe, tem muito pano pra manga. 🙂
      Abraço!

  4. Antonio Donizete Pignatti

    “Bacana” demais Rafael! Penso que é por aí mesmo, precisamos crescer e evoluir, e nada melhor que isso é construir uma mentalidade de desbravamento do desconhecido. Hoje você tem uma grande noção de mundo, podendo partilhar e compartilhar toda a sua experiência de vida. Continue firme nos seus propósitos de vida, é com determinação, vontade e entusiasmo que mudamos, e você conseguiu. Por isso que na sua volta parece que o tempo parou, e o tempo só não para para as pessoas que “arregaçam” as mangas e “partem”, sem medos ou receios, pois a vida nos ensina que basta coragem para descobrir o grande potencial que nós seres humanos temos para desenvolver. Boas lembranças de Londres, boas lembranças do seu comprometimento, entusiamo, conhecimento e outros. Um forte abraço! Toni Pignatti (Brasília – Distrito Federal).

    1. Rafa Autor da Postagem

      Olá Toni!
      Que demais, obrigado pelo comentário. Realmente, concordo com o que escreveste.
      Obrigado pelas palavras de carinho.
      Grande abraço!

      1. Toni Pignatti

        É isso Rafa, você merece! Seus valores são marcantes, e eles são referências da sua credibilidade. Continue nessa “toada” de crescimento e evolução humana. Para pessoas como você costumo dizer: “o céu é o limite”. Parabéns!
        Forte abraço!
        Toni Pignatti.
        Brasília – Distrito Federal
        29/05/2017.

  5. Teka Guimaraes

    Seu texto me emocionou!!! Lembrei de um retorno que fiz a casa de meus avós, após alguns anos da partida deles para o outro plano. A casa ficou empoeirando no tempo e ninguem mais habitava lá, apenas a visitavam, vez em quando, pra tirar as folhas secas do telhado… A casa de minha infância não era mais minha e não era de mais ninguem…

    1. Rafa Autor da Postagem

      Que foda isso né?
      Interessante o fato de ter sido apenas fechada a casa e parado no tempo. Fico feliz que te identificou.
      Abraço e tudo de bem.

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