GURI IN LONDON

Crônica: Fiquemos nós calmos

Se a gente voltar no tempo há algumas poucas décadas atrás este país estava devastado. Desiludido. Londres em especial. A capital do país estava sendo destruída por bombas dos alemães durante as tenebrosas noites (e alguns dias) da Blitz, na Segunda Guerra Mundial.

Os londrinos se desesperaram? Não. Ficaram tristes? Claro. Lares sendo destruídos, famílias sendo destruídas, sua cidade sendo devastada e a população se escondendo pra não se atingida. Alguns. Outros ficavam esperando as bombas caírem pro trabalho de apagar/ajudar/remover começar. A vulnerabilidade dessas pessoas está clara né? OK…

O mantra dos londrinos da época era “WE CAN take it“. E realmente. Mesmo sem escolher se eles queriam ou não aquela guerra, eles aguentaram, passaram por cima, e hoje a cidade nos encanta. 🙂

2016: Londres está devastada (com a Escócia e a Irlanda do Norte, claro). Desiludida. Ela foi destruída por votos do resto da nação (com exceção de dois países – Irlanda do Norte e Escócia). E agora é a nossa vez de dizer: WE CAN TAKE IT! Se isso é uma ofensa aos imigrantes (o que não acredito ser); se é uma ofensa aos cidadãos do bem; se é uma ofensa ao padre, ao bispo, a quem for… Não interessa. A gente pode mostrar que WE CAN TAKE IT! E por “we” eu digo todos nós imigrantes que estamos com o futuro ainda mais incerto, ou mesmo britânicos contrários à decisão.

O futuro era incerto na época da guerra (tipo, ele sempre é incerto na verdade). Será que haveria bombardeio? E se houvesse, será que a casa iria ficar de pé? A St. Paul’s? Os amigos? Será que as pessoas iriam sobreviver? Será que os familiares voltariam da guerra? Será que haveria vida no dia seguinte? Será que sequer haveria Londres no dia seguinte (afinal uma das noites foi chamada de “Segundo Grande Incêndio de Londres”)?

Hoje o futuro, olha só, continua incerto. A diferença é que a gente não precisa se esconder (a não ser que você esteja ilegal) e que vidas não serão perdidas. Não se sabe quais acordos serão feitos, como será a imigração, como será a economia em longo prazo. Fazer uma estimativa com um cenário normal já é complicado, com uma situação dessas é ainda mais. O problema é que hoje em dia a coisa é alarmada ainda mais pela mídia e pelas redes sociais, então muita gente fica andando em círculos sem saber o que fazer. Sem ter o que fazer na verdade. A não ser respirar, lutar e seguir adiante.

O que se sabe é que o Reino Unido (queira ele ou não, queira a União Europeia ou não) ainda vai fazer parte do clubinho por dois anos. O que se sabe é que devemos lutar e seguir adiante. Reclamar infelizmente não soma em nada, pelo contrário, só atrapalha. É importante nos expressarmos, essencial eu diria, mas o mais importante é fazer algo. Se você quiser fazer algo pra mudar o futuro posso te recomendar várias organizações que salvam vidas mundo afora como o Thirst Project, por exemplo! Isso está a nosso alcance – e por “nosso” eu digo nós imigrantes ou não.

Se eu escolhi amar este país, eu opto por, mesmo não concordado, aceitar o momento e lutar junto, não apenas reclamar e quem sabe até virar as costas. Eu não entendo este acontecimento como sendo uma ofensa aos imigrantes e blablabla. Até porque a pergunta não era “você é contra ou a favor à imigração”. Não acredito que eles vão tirar quem já está no país e nem que vão fechar as fronteiras do nada. Isso não é controle. Eu falo de controle. Tem muita coisa em pauta além da imigração – apesar de ela ser a mais forte. Sou contra imigrantes ilegais no país e aqueles que se aproveitam do governo e vem pra cá apenas pra usar da máquina pública. Não acho justo, não acho legal. Ajudar é uma coisa, se aproveitar é outra bem diferente.

Enfim, o mais importante de tudo é usar aquele cartaz que não foi utilizado durante a Segunda Guerra Mundial e ler ele várias vezes: fique calmo e siga em frente! Assim é a democracia. Respeitar, aceitar, e seguir em frente. Debater? Claro! Por que não? Sabendo que temos opiniões diferentes e modos diferentes de aceitar alguma situação.

Eu optei por me expressar, ficar calmo e seguir em frente.

For the records: Eu sou contra a saída do Reino Unido da União Europeia, mas reconheço que não há nada que possa ser feito a não ser ficar calmo e seguir em frente.

4 comentários sobre “Crônica: Fiquemos nós calmos

  1. Lara Evelyn

    Texto muito bom, será um momento delicado por aqui, mas muito aprendizado vira nesse momento, como disse, o futuro é incerto, mas uma coisa eu sei, compra do mês com 20 libras jamais, mas vamos aproveitar cada dia aqui, nessa cidade maravilhosa chamada Londres..

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